19 de maio de 2024

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MORTOS COM ARMAS DE FOGO NA BAHIA – CAMAÇARI, MATA DE SÃO JOÃO E SIMÕES FILHO DESPONTAM ENTRE AS 5 MAIS NA RMS

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Ao longo do segundo semestre do ano passado, Salvador e sua região metropolitana (RMS) registraram mais mortes com armas de fogo do que a região metropolitana do Rio de Janeiro: enquanto naquele município houve 1.758 tiroteios, 484 mortos e 565 feridos, na capital baiana aconteceram 753 tiroteios, com 499 mortos e 164 feridos. Por outro lado, a RMS aparece atrás do Recife, que teve 797 tiroteios, com 600 mortos e 309 feridos. 

As informações são do último relatório produzido pelo Instituto Fogo Cruzado, organização não governamental que chegou a Salvador em julho do ano passado e já atuava no Rio de Janeiro e em Recife desde 2016 e 2018, respectivamente. Segundo a coordenadora do instituto na Bahia, Tailane Muniz, os indicadores semelhantes entre as capitais baiana e fluminense se devem ao fato de a dinâmica da violência armada nesses locais ser parecida. 

“Muitas vezes, os números daqui são até maiores. Isso depende de alguns aspectos, como disputas entre facções e operações policiais. E essas duas características estiveram em alta em 2022”, explicou Muniz. A proporção de tiroteios em ações policiais em Salvador foi 32% em 2022, pouco abaixo dos 35% da região metropolitana do Rio. 

“Já em Pernambuco há uma dinâmica de violência mais endereçada, com alvos específicos. Por lá, a letalidade policial é consideravelmente menor”, acrescentou a coordenadora do Fogo Cruzado, que acredita que esse dado possa servir de exemplo para que o governo “vá no caminho da boa política para a segurança pública”. 

“Se Salvador tem índices de violência armada parecidos ou até maiores do que os do Rio, é porque as coisas estão, definitivamente, no caminho errado. Os números são fundamentais para construir políticas de segurança que sejam eficientes”, cravou Muniz. 

Para o especialista em Segurança Pública Jorge Melo, a cidade passa por um processo de ‘equacionalização do poder’ entre organizações criminosas. “Nós tínhamos facções locais que, há alguns anos, se aliaram a grandes organizações nacionais. Isso gerou uma alteração na estrutura de poder dessas organizações, e elas passaram a disputar, com mais intensidade, os territórios para poder dominar e manter os seus negócios”, analisou Melo. 

“Esse movimento possibilitou a esses grupos, além de um maior acesso a drogas, maior acesso a armas”, continuou o especialista. Conforme sua percepção, diferentemente do Rio de Janeiro, em Salvador os territórios ainda estão em disputa, o que gera tiroteios, os quais, por sua vez, elevam os números de mortos e de feridos. “Evidentemente que, nessa conta aí, tem também o saldo dos embates com as forças de segurança”, observou ele.  

 

Quatro baleados e três mortos por dia 

Segundo Tailane Muniz, o que mais chama a atenção em comparação ao relatório referente aos primeiros 100 dias de atuação do Fogo Cruzado no estado é a quantidade de vítimas, já que 663, ou 65%, dos 753 tiroteios mapeados na região metropolitana de Salvador pelo instituto resultaram em pessoas baleadas, o que levou a uma média de quatro por dia — das quais, três vieram a óbito.  

“O relatório do Fogo Cruzado mostrou que, em média, quatro pessoas são baleadas por dia aqui. Isso é assustador e não pode ser tratado como um número frio”, alertou a coordenadora regional da organização. Considerando-se somente os baleados durante ações ou operações policiais, houve 172 mortos e 48 feridos, o que representa 34% dos mortos e 29% dos feridos mapeados em toda a RMS nos últimos seis meses. 

Muniz pensa que o governo baiano tem sido malsucedido na produção de dados sobre segurança pública e não é transparente na divulgação das informações, mas falha, também, no desenvolvimento de uma política pública de segurança que foque a preservação da vida. 

“Quatrocentas e noventa e nove pessoas morreram em seis meses, e 34% dos casos aconteceram em ações policiais. São perseguições e operações que acabam funcionando como motor da violência armada”, acredita ela. 

SSP-BA não reconhece os dados 

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) informou que não comenta os dados apresentados pelo aplicativo. “Por não se tratar de um recurso oficial, não é possível atestar a veracidade das informações que são apresentadas, o que impossibilita, inclusive, a utilização desse recurso para fins policiais”, disse, por meio de nota, a SSP-BA. 

O órgão declarou também que os dados gerados “de forma indiscriminada e sem confirmação oficial podem produzir estatísticas distorcidas” e que dispõe de vários recursos para coleta de informações, como o Disque Denúncia (181), o 190 e as redes sociais, e que todos esses canais estão disponíveis de maneira gratuita e sigilosa. No entanto, não forneceu à reportagem dados próprios que contestassem o referido levantamento.

Além disso, reforçou que “tem intensificado as ações em toda a Bahia para aumentar a sensação de segurança e, principalmente, levar à Justiça os integrantes das quadrilhas de tráfico de drogas, principais responsáveis pela disputa armada pela venda de entorpecentes”. Para tanto, à parte do reforço às ações operacionais, a secretaria afirmou estar “investindo massivamente em tecnologia”. 

Dados por município

Entre os 13 municípios que fazem parte da região metropolitana, Salvador, o mais populoso, foi também o mais afetado pela violência armada e concentrou 74% dos tiroteios, 68% dos mortos e 79% dos feridos acumulados em toda região metropolitana. Os municípios mais afetados pela violência armada foram:  

● Salvador: 559 tiroteios, 340 mortos e 130 feridos;  

● Camaçari: 74 tiroteios, 51 mortos e 8 feridos;  

● Lauro de Freitas: 34 tiroteios, 20 mortos e 9 feridos;  

● Simões Filho: 30 tiroteios, 32 mortos e 5 feridos;  

● Mata de São João: 13 tiroteios, 13 mortos e 2 feridos.  

 

Bairros de maioria negra são os mais impactados 

No levantamento de informações realizado pelo Instituto Fogo Cruzado a partir do debate público, é possível reconhecer a faixa etária das vítimas em todos os casos. Não há registro do gênero em 2% dos casos. Mas a situação é bem pior quando se trata da cor ou raça: a falta de informação prevalece em 73% dos casos. 

Para Tailane Muniz, embora o fornecimento desse dado não configure uma obrigação da SSP, é “absolutamente relevante quando se fala em construir políticas públicas”, principalmente no caso da Bahia, cuja maior parte da população é negra.  

“Sabemos que os negros morrem mais, primeiro por uma questão de proporcionalidade, mas não temos, ainda, como apontar dados com recorte de raça de forma precisa, porque há um apagão também nesse sentido”, apontou Muniz. 

A despeito disso, com base nos dados do Censo de 2010, sabe-se que os negros representam mais de 70% da população residente dos seis bairros mais impactados pela violência armada em Salvador e região metropolitana:  

● Fazenda Coutos (Salvador): 27 tiroteios, 6 mortos e 2 feridos – 91% da população negra e 8% branca; 

● São Cristóvão (Salvador): 20 tiroteios, 21 mortos e 1 ferido – 84% da população negra e 14% branca; 

● Águas Claras (Salvador): 20 tiroteios, 13 mortos e 2 feridos – 86% da população negra e 12% branca;  

● Lobato (Salvador): 19 tiroteios, 18 mortos e 3 feridos – 90% da população negra e 9% branca;  

● Engenho Velho da Federação (Salvador): 17 tiroteios, 12 mortos e 16 feridos – 87% da população negra e 12% branca;  

● Fazenda Grande do Retiro (Salvador): 17 tiroteios, 17 mortos e 1 ferido -% da população negra e 12% branca. 

Na avaliação de Dudu Ribeiro, cofundador da Iniciativa Negra por Uma Nova Política de Drogas e coordenador da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, o modelo de segurança pública vigente contribui para que esses bairros sejam cenários de violência. 

“O modelo de segurança pública em curso privilegia a produção de confrontos e ocupação de territórios negros pelo Estado com a força policial e a violência”, avaliou Ribeiro, que considera necessário repensar esse modelo, baseado numa lógica de ‘guerra às drogas’. 

“Na verdade, não é uma guerra contra substâncias; é uma guerra contra determinadas pessoas e que encarcera, desorganiza e mata famílias negras, além de expor os próprios agentes de segurança”, declarou ele. 

 

Comparativo (segundo semestre de 2022) 

Região Metropolitana do Rio: 

1.758 tiroteios, 484 mortos e 565 feridos; 

55 vítimas de balas perdidas: 16 mortas e 39 feridas. 

Região Metropolitana do Recife: 

797 tiroteios, 600 mortos e 309 feridos; 

35 vítimas de balas perdidas: 7 mortas e 28 feridas. 

Região Metropolitana de Salvador: 

753 tiroteios, 499 mortos e 164 feridos; 

21 vítimas de balas perdidas: 8 mortas e 13 feridas. 

Números de Salvador e RMS 

● Número total de tiroteios/disparos de arma de fogo em Salvador e região metropolitana: 753; 

● Média de tiroteios/disparos de arma de fogo por dia: 4;  

● Número total de baleados (mortos + feridos): 663;  

● Número total de mortos: 499;  

● Número total de feridos: 164. 

Perfil das vítimas  

Gênero  

Dos 499 mortos a tiros em Salvador e região metropolitana, 463 eram homens, 33 eram mulheres, um era não binário e dois não tiveram a identidade revelada.  

Dos 164 feridos por disparo de arma de fogo, 122 eram homens, 28 eram mulheres e 14 não tiveram a identidade revelada.  

Vítimas por faixa etária  

Cinco crianças, 20 adolescentes, 630 adultos e oito idosos foram baleados no segundo semestre de 2022: entre as vítimas, uma criança, 14 adolescentes, 478 adultos e seis idosos morreram.  

Cor ou raça  

Entre os 663 baleados em Salvador e região metropolitana no segundo semestre, foi possível identificar a cor ou raça de apenas 180 deles (27%). 338 mortos e 145 feridos não tiveram a cor/raça revelada.  

Dos 499 mortos, os negros são a maioria dentre os perfis identificados, com 134 mortos, seguido dos brancos, com 27 vítimas. Entre os 164 feridos, 14 eram negros, quatro eram brancos e um era amarelo. 

Agentes de segurança  

25 agentes de segurança foram baleados em seis meses: nove morreram (um em serviço, quatro fora de serviço, três eram aposentados/exonerados do cargo e um não teve o status de serviço revelado) e 16 ficaram feridos (oito em serviço e oito fora de serviço).  

Os policiais militares foram a categoria mais afetada pela violência armada. Dos nove mortos, três eram policiais militares, dois eram militares do Exército, um era da Aeronáutica, um era policial civil, um era agente socioeducativo e um não foi identificado. Dos 16 feridos, todos eram policiais militares.  

Trabalhadores informais  

Nove motoristas de aplicativo foram baleados: oito deles morreram e um ficou ferido. Oito vendedores ambulantes foram baleados: quatro morreram e quatro ficaram feridos. Sete mototaxistas foram baleados: quatro morreram e três ficaram feridos. Dois entregadores/motoboys foram baleados e morreram.  

Oito rifeiros foram mortos a tiros nos seis meses em que o Instituto Fogo Cruzado mapeou Salvador e região metropolitana.  

Políticos  

Houve dois casos de ataques contra políticos no segundo semestre. Ao todo, um político foi morto a tiros em Salvador e região metropolitana.  

Contexto dos casos  

Houve 18 chacinas em Salvador e região metropolitana, deixando 60 pessoas mortas. Em 13 dos casos – o que equivale a 72% deles -, as vítimas foram mortas durante ações ou operações policiais, totalizando 45 mortos em chacinas policiais.  

Feminicídio  

Quatro mulheres foram vítimas de feminicídio por disparo de arma de fogo. 

Balas perdidas  

21 pessoas foram vítimas de balas perdidas: deste número, oito morreram e 13 ficaram feridas. Entre as vítimas, 12 foram atingidas durante ações ou operações policiais: quatro morreram e oito ficaram feridas.  

Considerando a faixa etária das 21 vítimas, duas eram crianças, duas eram adolescentes e quatro eram idosos.  

Motivos  

Dos 753 tiroteios ocorridos em seis meses em Salvador e região metropolitana, foi possível identificar a motivação em 89% deles.  

Os principais motivos dos disparos de arma de fogo na região metropolitana foram: Homicídios/Tentativas de homicídio (363); Ações/Operações policiais (244); Roubos/Tentativas de roubo (107); Disputas (104).  

Locais mais impactados  

Uma pessoa foi morta a tiros quando estava dentro de shopping.  

Oito pessoas foram baleadas quando estavam dentro de transportes públicos: duas morreram e seis ficaram feridas.  

Dezessete pessoas foram baleadas quando estavam dentro de bares: 11 morreram e seis ficaram feridas.  

Treze pessoas foram baleadas enquanto participavam de eventos: oito morreram e cinco ficaram feridas.  

Entre as 30 pessoas baleadas dentro de bares ou em eventos, 19 foram baleadas em homicídios/tentativas de homicídio: 14 morreram e cinco sobreviveram.  

Residências  

Trinta e sete pessoas foram baleadas quando estavam dentro de casa: 35 morreram (28 homens e sete mulheres) e duas ficaram feridas (um homem e uma mulher).  

Das sete mulheres mortas a tiros dentro de casa, três foram vítimas de feminicídio. 

Sobre o instituto 

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia por meio da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 30 indicadores inéditos sobre violência nessas regiões.  

Por meio de um aplicativo, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações acerca de tiroteios, checadas em tempo real e que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do instituto. 

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Fonte – Jornal Correio

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